Quando decidi criar uma nova peça para a Companhia em 2008, pensei em fazer algo que respondesse às características do novo espaço em estreia, a Black Box.
Depois, quis voltar a comunicar através da dança, pura e simples. Coligi os materiais que foram surgindo nas improvisações, na experimentação de novas coisas, das dúvidas, da vida como ela é, de improvisar quando é necessário e continuar em frente, e construí uma peça para 2 bailarinos com uma forte componente de dança e tecnicamente exigente.
Uma peça muito diferente da linha cénica e do movimento que caracteriza os meus últimos trabalhos. Procurei outro vocabulário, símbolos pessoais (meus e dos bailarinos) e imagens cénicas para falar do meu percurso na dança.
Recordei o início do meu projecto na cidade e o que me motivou sair de Lisboa, no final dos anos 80, para desenvolver um projecto comunitário no Alentejo. Como nessa altura, nos reinventávamos cada dia, como lutávamos para vencer as dificuldades, como preservámos os nossos valores e crenças. A vida teve mais valor porque foi vivida momento a momento.
O subtexto da peça é alimentado pela necessidade interior desta reflexão, necessária para avaliar onde/como estamos e para onde queremos ir!
Pelo percurso, decidi “descomplicar” a linguagem que me tem caracterizado. Na experimentação de um novo caminho, a peça existe sem a técnica associada ao espectáculo. Tudo se constrói e tudo se desconstroi a partir de uma linha dramatúrgica, que reflecte o meu interesse pelo Expressionismo alemão. Em cena utilizei materiais banais e recursos comuns do dia-a-dia, dei corpo ao potencial dos bailarinos para contar uma parte da minha história na dança. Soltei as coisas!
2 BOXE foi, e continua a ser uma experiência de criação agradável, que não teria sido a mesma, sem a dedicação e esforço dos bailarinos.
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